Na sala de espera pelo meu médico, havia uma senhora que parecia ter atravessado séculos para chegar até ali.
Como se tivesse escapado de algum livro antigo, daqueles escritos à luz de vela, carregando silêncio nas páginas.

Vestia um casaco longo vermelho — vermelho profundo, denso — que lhe cobria o corpo como um manto cerimonial. Nos pés, botas pretas inesperadamente limpas, em contraste com seus cabelos longos, grisalhos e indomáveis, que pareciam não conhecer água, pente ou espelho há muitas décadas. O cabelo escorria pelas costas como uma capa antiga, viva, cansada.

As sobrancelhas já não existiam. O tempo as havia levado.
Em resposta, ela as redesenhou com lápis preto, traços firmes e escuros, como quem se recusa a desaparecer por completo.

Sentada, curvada, aguardava ser chamada. Não apenas pelo médico — mas por algo maior, talvez.
Do bolso profundo do velho casaco vermelho, retirou uma lixa de unhas. E ali, naquele espaço neutro e asséptico, iniciou um ritual silencioso.

Suas unhas eram enormes, fortes, intactas. Pareciam nunca ter conhecido esmalte.
Eram unhas nuas, honestas, resistentes — como se tivessem atravessado o tempo junto com ela.

O som seco da lixa deixava claro: eram unhas firmes, espessas, quase indestrutíveis. Ela as lixava com um esmero que ultrapassava qualquer vaidade comum. Aquilo não era manutenção. Era cuidado profundo. Era permanência.

Seus dedos finos vestiam um único anel solitário na mão esquerda. Não sei se aquele anel carregava algum significado, mas parecia fazer parte daquela mão há muitos anos — como se não fosse acessório, mas memória.

Seu corpo se dobrava para frente, como quem convive com dores na coluna — ou com o peso invisível de muitos anos vividos sem testemunhas.
Ainda assim, suas mãos eram firmes. Os movimentos, lentos e seguros. Nada nela parecia obedecer à pressa do mundo moderno.

Ela não parecia esperar.
Ela parecia habitar a espera.

Então, a enfermeira a chamou.
E eu nunca esquecerei o nome: Virgínia.

Chamou com certa intimidade, como quem não chama um estranho.
“Como vai, Virgínia?”
E Virgínia respondeu, com um sorriso que quase não se via: pretty good.

Ela entrou corredor adentro.
Eu a segui com os olhos.

E foi então que percebi: havia nela uma jovialidade interna, uma vida silenciosa pulsando por dentro, algo que sua aparência — pesada de tempo, de marcas, de camadas — insistia em esconder.

Virgínia me marcou.

Não pelo casaco vermelho.
Nem pelos rituais discretos.
Nem pela estranheza que chamava atenção.

Mas por aquilo que ela guardava.

Como eu gostaria de saber mais sobre ela.
Como eu gostaria de sentar ao seu lado
e apenas ouvir.

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